Evento reuniu comunicadores de diferentes realidades da Igreja e promoveu reflexões sobre inteligência artificial, relações humanas, testemunho e unidade
Carolina Azevedo | Jornalista e colaboradora do Setor de comunicação

Deixar as telas um pouco de lado para encontrar pessoas, partilhar experiências e criar novas pontes. Foi com essa proposta que a Pastoral da Comunicação (Pascom) da Arquidiocese de Maceió realizou, no dia 8 de agosto, o II Encontro Arquidiocesano da Pascom, na Catedral Metropolitana de Maceió.
O encontro reuniu centenas de comunicadores das Pascom’s paroquiais e Conventos, comunicadores de grupos, movimentos e profissionais de outros setores, em um dia marcado por formação, descontração e vivências compartilhadas.
Inspirado no tema do 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o evento refletiu sobre o impacto da inteligência artificial e dos algoritmos na identidade e nas relações. As discussões, porém, foram além das redes sociais e das ferramentas digitais. O encontro também voltou o olhar para o próprio comunicador, suas experiências e relações, destacando a importância de um serviço alinhado ao testemunho.
Participaram das palestras o Cônego Valmir Galdino, chanceler e moderador da Cúria Metropolitana de Maceió; o Padre José Elielton, vigário geral da Arquidiocese de Maceió; Flávia Mendes, presidente do Conselho Nacional do Laicato no Brasil na Arquidiocese de Maceió; o jornalista Rafael Augusto; Jaqueline Silva, coordenadora do Setor de Comunicação da Comunidade Doce Mãe de Deus – Missão Maceió; e Ingridy Rossely, secretaria da Comissão Pascom do Regional NE2.
“Minha missão é levar o amor ao outro”
Com sorrisos largos e abraços calorosos, a equipe arquidiocesana acolheu os participantes, especialmente aqueles que visitavam pela primeira vez a Catedral Metropolitana. O clima de acolhimento, mesmo diante dos contratempos, remetia à tradicional hospitalidade brasileira: “Entra, fica à vontade, não repara a bagunça”.
Foi nesse ambiente que o Cônego Valmir apresentou, na primeira palestra do dia, uma das ideias que atravessaria todo o encontro: a comunicação como participação e encontro com o outro.
“Quem comunica participa ao outro (no sentido de tornar o outro parte). Minha missão é levar o amor ao outro e o amor tem nome: Deus.”
Formação que fortalece a missão
Entre os participantes estava Gabriel Lima, membro do núcleo da Pascom Arquidiocesana e com notória trajetória na Pascom da Paróquia São João Maria Vianney, no Clima Bom I. Após participar recentemente do 9º Encontro Nacional da Pastoral da Comunicação, em Aparecida (SP), ele destacou a importância desses momentos tanto para quem está aprendendo quanto para quem já atua na formação de outros agentes.
“Para mim, é uma alegria porque, primeiro, que reaviva a minha fé, reaviva a minha missão de servir, a vontade de querer servir. Um encontro desse porte, assim como o Nacional, reúne muitas experiências extras além de todo o conhecimento programado para ser aplicado ali e acaba sendo algo realmente reavivador.”
Para Gabriel, um dos principais aprendizados está na necessidade de fortalecer a unidade dentro das comunidades e de prestar atenção às relações, inclusive aos conflitos que podem interferir no serviço.
“É olhar para o outro e perceber que ali existe todo um universo que não conhecemos, se a gente não se deixa afetar ou conhecer. É nesse acesso que podemos identificar conflitos, interno ou externo, com alguém. E há esse bloqueio também. Isso gera um bloqueio para o serviço e, então, acaba dispersando. Às vezes, a gente mesmo acaba se perdendo e perdendo o outro justamente por essa questão de não haver unidade.”
Conhecimento para ser compartilhado
De Arapiraca, na Diocese de Penedo, Iago Adriano participou pela primeira vez de uma atividade na Catedral Metropolitana. Admirado com a casa da Mãe dos Prazeres, ele destacou a importância das formações oferecidas pela Pascom da Arquidiocese para fortalecer a comunicação entre as paróquias e levar conhecimento a outros agentes da Igreja.
“Os coordenadores viram que essas formações proporcionadas pela PASCOM da Arquidiocese são muito importantes, principalmente para nós passarmos para os nossos irmãos de outras paróquias e da diocese. O que a gente aprende aqui não pode ficar somente na nossa vida. A gente precisa incentivar os outros e conseguir transmitir essa mensagem.”
Iago organizou uma caravana com amigos da Diocese de Penedo e veio por conta própria para participar do encontro. A experiência, segundo ele, também reforçou a responsabilidade de multiplicar o conhecimento adquirido.
Ao falar sobre inteligência artificial e comunicação, tema presente nas discussões do evento, relacionado à mensagem do Papa Leão para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, Iago reconheceu a tecnologia como ferramenta, mas alertou para o risco de ela substituir a essência humana do serviço.
“Eu sei que a inteligência artificial pode ser utilizada para algumas coisas, para dar alguns retoques, mas nem sempre para tirar a nossa essência, a essência do nosso servir. Porque, quando utilizamos a inteligência artificial, principalmente nas postagens e nas paróquias, a gente vai perdendo a essência, aquele amor, aquela dedicação em servir a Cristo. A gente vai perdendo a nossa fé, a nossa dedicação, o nosso amor que sentimos.”
Criar pontes, não degraus
A busca pela aproximação entre diferentes grupos da Igreja também esteve presente na participação da Renovação Carismática Católica no encontro. A iniciativa segue uma perspectiva defendida pela coordenadora-geral da Pascom, Maria Cícera: “criar pontes e não degraus”.
A proposta é fortalecer vínculos e formar amigos, e não concorrentes, na comunicação.
Para o atual coordenador do Ministério de Comunicação da RCC Maceió, a experiência representa uma oportunidade de unidade e serviço, mesmo sem uma formação específica na área da comunicação.
“Eu não sou da área, não tenho nenhuma formação na área, e vim a serviço mesmo. Como eu servia no grupo de oração, acabei chegando à comunicação por causa dos chamados. É uma alegria grande, porque a gente vê essa unidade. Todos nós somos uma Igreja só. Quando isso acontece, essa união entre os ministérios, existe também uma comunicação maior.”
Uma comunicação que toca o coração
A Coordenadora-geral da Pascom na Arquidiocese de Maceió, Maria Cícera explicou que o Encontro Arquidiocesano nasceu da necessidade de aproximar agentes da comunicação e, cada vez mais, comunicadores católicos de diferentes realidades.
Para ela, mesmo diante das dificuldades de deslocamento e dos desafios internos enfrentados pelas equipes, a participação no encontro revela a necessidade de criar espaços de comunhão.
“A intenção desse encontro não é só reunir agentes da pastoral da comunicação e hoje comunicadores católicos de outras realidades e dioceses. É estreitar laços. É saber que a realidade do outro até é mais difícil do que a minha. Mas eu fico preso no meu comodismo, no meu quadradinho e esqueço que o outro sofre, que o outro também precisa da minha ajuda e eu não me voluntario a ajudar em nada.”
Ao refletir sobre “rostos e vozes humanas”, Cícera defendeu uma comunicação que não se limite à técnica ou às ferramentas digitais. Para ela, a missão da Igreja passa pelo olhar, pelo sorriso, pela escuta e pelo testemunho.
“Jesus Cristo, quando comunicava, olhava nos olhos. Quando falava das parábolas, ele sentia a dor, ele tinha compaixão. Mas ele também se alegrava, ele também chorou quando o Lázaro morreu. Então, por que nós teimamos em estar na técnica, se o nosso lugar é na pastoral? O nosso lugar é tocando o coração, falando com a nossa vida, com o nosso testemunho.”
“Uma paróquia não é feita de algoritmos”
A coordenadora também chamou atenção para o risco de a comunicação da Igreja priorizar os algoritmos em vez das pessoas. Segundo ela, uma comunidade é construída por histórias, relações e experiências que não podem ser reduzidas aos números das redes sociais.
“Uma paróquia não é feita de algoritmos, é feita da senhora que viu o rolar da pedra fundamental até o jovem que está chegando, que está vivendo uma crise.”
Nesse sentido, Cícera defende que a Pascom compreenda seu papel como serviço e como ponte dentro da Igreja. Mais do que ocupar um lugar de destaque, a pastoral deve aproximar pessoas, ouvir diferentes realidades e ajudar a contar as histórias presentes nas comunidades.
“Ela tem que reconhecer que ela existe, que ela é protagonista de uma história, não porque ela é a melhor nem a mais importante, mas porque ela é ponte, ela tem que ser ponte.”
A escuta como caminho de unidade
A presença de diferentes grupos no encontro também foi destacada por Cícera como um passo importante para aproximar a Pascom de outros ministérios e realidades da Igreja. Para ela, a mudança precisa começar pela própria Pastoral da Comunicação, antes de cobrar transformações dos outros.
“Eu sei que tem erros dos dois lados, mas eu me preocupo com o nosso. O que a gente faz de diferente? Não interessa o outro, mas o que eu faço? Então, o maior cuidado da PASCOM tem que ser o outro, tem que ser a escuta.”
Ao final, Cícera reforçou que o lugar da Pascom não é acima dos demais grupos, mas junto deles, como servidora e ponte entre pessoas e realidades diferentes.
“Eu acho que a presença da PASCOM na paróquia é em primeiro ela se reconhecer com o lugar dela, não acima de todos, mas como servidora.”
O II Encontro Arquidiocesano da Pascom, assim, reafirmou uma comunicação que não se resume às ferramentas utilizadas para transmitir uma mensagem. Antes de falar para as pessoas, a proposta é estar com elas: reconhecer seus rostos, ouvir suas vozes, acolher suas histórias e transformar a comunicação em um verdadeiro serviço de comunhão.











