Arquidiocese de Maceió abre CF 2026 em bairro afetado pela mineração e Dom Beto alerta para o pecado da indiferença

Neste ano, o direito à moradia digna está no foco da Campanha da Fraternidade

Por Mariane Rodrigues | Pascom Arquidiocesana

(Fotos: Carlos Wilker e Suzana Lima | Pascom Arquidiocesana)

A Campanha da Fraternidade 2026 foi lançada nesta Quarta-Feira de Cinzas (18) em todo o Brasil. Com foco na moradia, ela foi aberta de maneira ainda mais particular em Maceió, onde mais de 60 mil pessoas tiveram o direito à moradia digna violado. Elas foram obrigadas a abandonar suas casas em cinco bairros da cidade por causa do afundamento do solo causado pela extração de salgema pela Braskem.

Por isso, a Arquidiocese de Maceió abriu a Campanha da Fraternidade com uma Santa Missa presidida pelo arcebispo Dom Beto Breis e celebrada em um desses bairros: o Bom Parto. Assim como ele, Farol, Bebedouro, Mutange e Pinheiro são considerados hoje bairros fantasmas. Neles, o solo afundou e as casas racharam, apresentando riscos a quem habitava esses locais. Os moradores não só perderam seus imóveis como tiveram que se distanciar de suas histórias, origens e relações comunitárias construídas ao longo dos anos.

Os poucos que ficaram vivem em condição de isolamento social. Isso significa que, embora tenham permanecido em seus imóveis, o direito à moradia digna foi afetado também pela ausência de equipamentos públicos que precisaram ser desativados, como escolas, unidades de saúde, transportes, praças e até igrejas.

Dom Beto Breis lembra que a realidade de Maceió é muito própria por causa da situação dos bairros afetados pela mineração e reforça que o deslocamento dessas famílias para outras localidades não pode ser considerado uma tarefa fácil.

“Lembremos da casa onde a gente nasceu, onde a gente cresceu, os vizinhos, os próximos, onde a gente fazia uma compra. Isso tudo foi destruído de uma hora para outra. São vínculos, são relações de afeto, de proximidade, são histórias de vida que foram cavadas pela ganância e pelos comparsas dos gananciosos”, exclamou Dom Beto durante a homilia.

Luiz Pedro ainda é morador do Bom Parto. Ele costumava frequentar a Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, que foi desativada com o afundamento do solo. Mesmo tendo um teto para viver, a condição de moradia ficou difícil, e ele define o bairro como um espaço “caótico”.

“Nós não temos segurança, e praticamente 90% do comércio acabou. E o que nos segura realmente é a fé por meio de Nossa Senhora do Bom Parto. A gente sente muita saudade de pessoas que moraram no bairro, que foram embora. Outros morreram de depressão, muita tristeza. E a gente segue em frente, com confiança em Deus e na esperança de o bairro um dia voltar ao que era antes”, afirma ele.

Para Padre Adriano, que é pároco da Paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, a Campanha da Fraternidade é uma oportunidade de acolhimento a quem mais necessita e sofre.

“A gente vê a realidade quando passa por cada casa, cada lar. Ainda hoje a gente passa e encontra rachaduras nas casas, que antes eram pequenas e agora estão grandes; encontramos pessoas que não têm condições de estar no imóvel, mas estão porque não têm para onde ir”, pontua ele.

O arcebispo Dom Beto Breis destaca que a sociedade não pode ser indiferente a situações como essa, que afligem outras pessoas. “A fraternidade pressupõe esse senso de responsabilidade. A indiferença é um pecado grave. A dor do outro não dói em mim. Esse é o mal do nosso tempo”, reforçou o metropolita durante a homilia.

Ele lembra que a Quaresma é o momento propício para refletir sobre as questões sociais por meio de um gesto tão concreto como o da Campanha da Fraternidade.

“A fraternidade, o cuidado com o outro é caminho inexorável para a salvação. O homem curvado sobre si mesmo pode até usar a religião para legitimar a sua indiferença diante da dor do outro. Podem usar a religião como os fariseus usavam”, complementa Dom Beto.
A Campanha da Fraternidade foi criada em 1962 na cidade de Nísia Floresta (RN). Dois anos depois, ela se expandiu para todo o Brasil, sendo coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Todos os anos, ela aborda um tema que expõe graves problemas sociais, a exemplo da moradia, e é realizada sempre no período da Quaresma. Além disso, atua na arrecadação financeira por meio de uma rede de solidariedade, cujos valores são destinados a projetos sociais.

“A igreja de todo o Brasil assumiu essa proposta de, no tempo quaresmal, nesses 40 dias de preparação para a festa maior, fazer um apelo concreto de conversão diante de uma realidade em que a fraternidade é ferida, negada. E qual o sinal mais belo de conversão do que viver como irmãos? Santo Agostinho definiu o pecador como ‘o homem encurvado sobre si mesmo’. E a Quaresma é a razão de a gente se endireitar e começar a olhar para o outro”, explana Dom Beto Breis.