Texto: Mariane Rodrigues| Pascom Arquidiocesana
Fotos: Livia Pascoal| Pascom Arquidiocesana
Dom Beto ressalta que o amor de Cristo é exemplificado não só pela entrega à dor física, mas também às emocionais
–
A Sexta-Feira da Paixão (3) foi tomada por reflexões, momentos de introspecção e adoração intensa a Jesus Cristo. No dia em que se recorda a morte do Senhor, a Catedral Metropolitana de Maceió ficou repleta de fiéis, que começaram a aparecer desde a manhã e permaneceram até depois da procissão do Senhor Morto, no início da noite, quando puderam se despedir, em oração, do Filho de Deus. O Mistério da Cruz foi celebrado em profundo silêncio. Para o arcebispo metropolitano, Dom Beto Breis, esse mistério não pode ser entendido senão pelos caminhos do amor.

Em sua homilia, Dom Beto recordou o Papa Bento XVI, que considerava a razão uma ferramenta importante para o caminho da compreensão do mundo, mas que, sozinha, não era suficiente para explicar e justificar o mistério da cruz. Para o Santo Padre, o amor é indissociável da entrega voluntária de Cristo à crucificação e, por isso, indispensável para o entendimento da totalidade da existência humana. “Diante da cruz, a razão não consegue se sustentar. É quando entra o amor. Só o amor explica o Mistério da Cruz”, enfatizou Dom Beto.

O amor como fonte inesgotável da vida de Cristo é sustentado também no quarto evangelho, segundo João, quando se inicia o relato da Paixão de Cristo, na Última Ceia: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.
Dom Beto ressalta que o amor de Cristo é exemplificado não só pela entrega à dor física, mas também às emocionais.
“Ouvimos todo tipo de dor: dor física, das torturas que sofreu, mas também dores emocionais: a traição do amigo Judas, companheiro que o seguiu durante três anos; a fragilidade na fé de Pedro, que o negou três vezes; ver a mãe ali, chorando, sofrendo aos pés da cruz. A Paixão de Jesus não foi um faz de conta. Realmente, o Filho de Deus sofreu, porque Ele se fez igual a nós em tudo, menos no pecado”, prosseguiu o metropolita durante a homilia.

Durante a homilia, Dom Beto mencionou São Francisco de Assis, recordando que, em 2026, completam-se 800 anos da morte do santo. O metropolita enfatiza o amor que Francisco tinha pelo Mistério da Cruz, em que Jesus se fez humilde, irmão e crucificado.
De família rica da sociedade medieval, aos 23 anos, Francisco de Assis queria prestígio e fazer parte da nobreza. Porém, o arcebispo lembra que foi em uma experiência de sofrimento e frustração, depois de duas guerras, que Francisco, em um encontro com um leproso, transformou-se.
“É como se ele pensasse assim: ‘Eu estou sonhando subir, ascender, mas o Filho de Deus desceu. Eu estou querendo o sentido inverso, contrário desse encontro com Cristo, profundo, marcante, decisivo, não emocional, não passageiro, mas profundo nas raízes de sua alma, a ponto de criar paixão e convicções’”, enfatizou Dom Beto.

Francisco, então, decidiu seguir as pegadas do Senhor Jesus Cristo, explica Dom Beto na homilia. “Encantado com o mistério da encarnação e, mais ainda, da Paixão e Morte de Nosso Senhor, ele andava pelos bosques chorando a Paixão de Jesus”.
Francisco geralmente dizia: “O amor não é amado”. E, geralmente, quem ouvia Francisco falar assim chorava com ele também a Paixão de Jesus. “A Sexta-Feira Santa é um convite a fazermos como Francisco: a não apenas repetirmos um rito que realizamos todos os anos, mas contemplarmos e nos deixarmos também ficar estupefatos, admirados diante de tão sublime mistério: o Senhor do céu e da Terra numa cruz”, exclamou o arcebispo.

A programação na Arquidiocese de Maceió começou às 12h, com o tradicional Ofício da Agonia. Às 15h, iniciou a Celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo arcebispo Dom Beto Breis. Esse é o único dia do ano em que não há missa. Por isso, a liturgia é diferente.
Após a entrada silenciosa na Catedral, Dom Beto se prostrou ao chão, diante do altar, em silêncio e profunda reverência. Após as leituras, o salmo responsorial, a leitura do Evangelho e a homilia, o rito prosseguiu com a oração universal pela Santa Igreja, pelo Papa, por todos os membros da Igreja, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não acreditam em Cristo e em Deus, pelos governantes e por todos aqueles que sofrem.

Em seguida, por mais de uma hora, foi realizada a adoração da Cruz, na qual todos os fiéis presentes na Catedral Metropolitana seguiram até a cruz para contemplar Cristo em sua morte, que manifesta seu imenso amor para salvar o mundo. Depois, os fiéis receberam a comunhão com as hóstias consagradas na Quinta-Feira Santa.

Ao fim da Celebração da Paixão do Senhor, os fiéis, acompanhados pelo arcebispo e pelo clero, percorreram as ruas do Centro na Procissão do Senhor Morto, retornando à Catedral Metropolitana, onde rezaram diante do Senhor Morto e de Nossa Senhora das Dores. Posteriormente, rezaram em silêncio para a despedida.

Luciano Celestino de Oliveira carregou a imagem de Nossa Senhora das Dores e o esquife com o Senhor Morto. Para ele, o sentimento é de emoção, mesmo fazendo isso há cerca de 20 anos.
“Para mim, é um prazer carregar o Senhor Morto. É uma alegria imensa poder tocá-lo e carregá-lo. Durante o trajeto, penso em muitas coisas. Peço a Deus que me dê força, coragem e que eu nunca perca a minha fé”, considera ele.

Já Heleno Leopoldino da Fonseca, que é de Rondônia, sempre carrega o esquife naquele Estado. Ele participou da celebração em Alagoas pela primeira vez e levou o esquife no percurso da Arquidiocese de Maceió.
“É um misto de emoção reviver a trajetória de Cristo. A gente vai pensando, pede perdão. Muitas daquelas chicotadas que Ele tomou naquela época, hoje a gente também dá. Às vezes, fazemos isso novamente, deixando de ir à missa, não tratando bem o amigo. Então, vamos caminhando, pedindo perdão e agradecendo por tudo.”

