A convite do Setor da Juventude e do Arcebispo Metropolitano, Dom Carlos Alberto Breis, OFM, jovens de diversos movimentos marcaram presença na catedral para celebrar as canonizações de Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati.
Por Carolina Azevedo – Pascom Arquidiocesana

Ser declarado santo pela Igreja no Dia da Independência do Brasil vem nos lembrar que, para ser santo, não se depende de ninguém (embora toda ajuda seja válida). Entretanto, para isso, é necessário ser original, fugir das fotocópias e, principalmente, viver — e não fingir que se vive.
Eram 5 da manhã aqui no Brasil, 10 da manhã em Roma, e um momento só para o mundo inteiro: a hora de ganhar mais dois santos reconhecidos. Já daqui vale uma pausa para destacar que estão entre os reconhecidos, porque você e eu, felizmente, hora ou outra, podemos topar com um daqueles “santos que só Deus sabe o nome”.
É um dia de grande graça para toda a Igreja, com um sabor quase palpável de que vale a pena ir adiante, porque não vivemos apenas de histórias, afinal: a Igreja é viva e a Igreja é jovem!
Para a irmã Cida, da Congregação das Irmãs Filhas do Sagrado Coração de Jesus (FSCJ), a emoção teve um toque especial: ela acompanhou pessoalmente em Roma e conta como foi a experiência:
“Para mim, foi um grande momento de reavivar a fé, de oração pela Igreja, pelas famílias e pelos jovens, para que possam conhecer Jesus e se encantar por sua proposta de amor.”
“Estar em Roma e poder participar da canonização de dois santos jovens de nossa Igreja Católica vejo como um grande presente de Deus. Sinto-me privilegiada e agraciada. Já é a terceira vez que participo de uma canonização: Santa Teresa Verzeri (Papa São João Paulo II), Santa Dulce dos Pobres (Papa Francisco) e, agora, São Pier Giorgio Frassati e São Carlo Acutis — dois jovens que aprenderam a amar a Deus e viveram significativas experiências com Ele.”
“Dizia o Papa Leão, em sua homilia: ‘Cultivaram o amor a Deus e aos irmãos por meios simples, ao alcance de todos: a Santa Missa diária, a oração — especialmente a Adoração Eucarística. Essencial para eles era a confissão frequente. Ambos, finalmente, tinham grande devoção pelos santos e pela Virgem Maria e praticavam generosamente a caridade’.”

Um jovem como eu, um santo em construção
Casos bonitos como os de Pier e Carlo às vezes não estão tão longe daqui. Afinal, o céu está sempre perto, e é justamente conhecendo as histórias deles que vemos que só podem surgir cada vez mais santos se houver quem acredite — e os perceba.
É possível ver isso no vídeo da sobrinha de Pier sendo ovacionada por ter insistido na propagação da história, ou até mesmo nas entrevistas da mãe de Carlo ou de seus “guardiões” religiosos na Itália, como oportunamente aparecem no turbilhão de publicações sobre tudo o que envolve os dois novos santos, compartilhadas nas redes sociais nos últimos dias.
Há tempos venho reparando em uma pequena (apenas em estatura) alma e, por intercessão de Carlo e Pier, tive a alegria de poder entrevistá-lo e trazer também aqui um pouco de sua notória caminhada.
O pequeno Luan Bruno, de 15 anos (tal qual Acutis), traz consigo não só a própria conversão diária, como a verdadeira conversão de seus pais — que resultou no sacramento do matrimônio, contraído depois de 17 anos de união irregular — e a causa de seu irmão, hoje distante do cotidiano na Igreja.
Como é que pode tão pequena criatura sustentar tamanha carga? Na graça do Senhor, que é um refúgio para nós, como entoa o salmista (Sl 89[90]), também neste 7 de setembro, 23º domingo do Tempo Comum.
“Tudo começou no TikTok. Um dia, eu vi um vídeo sobre a Igreja por lá e gostei. Quando a gente vê muito sobre um assunto, aparece cada vez mais coisa sobre o tema e essa foi a minha sorte. Assim eu fui aprendendo cada vez mais e querendo ir além dos vídeos para aprender mais também.”
“Eu não sabia o que era pecado antes, mas, vendo os vídeos, Deus tocou no meu coração, e eu fui entendendo as coisas, vendo que estava no erro e fui conhecendo a verdade e a verdade me libertou.”
Como a maioria dos jovens da sua idade, Luan está inserido no contexto digital, mas confessa ter medida no uso para que isso não atrapalhe seu dia a dia. Já quanto ao testemunho cristão, o “pequeno gigante” relata os desafios do cotidiano como adolescente católico:
“Graças a Deus, estudo em um colégio católico, o que já ajuda na minha caminhada. Mas nem todos são convertidos de fato, né? Tem uns que tentam nos corromper. Então nem sempre dá pra agradar, mas nem Jesus agradou a todos, né? Às vezes até um riso, até sua alegria, já é motivo de atrito. Mas se quiser ser meu amigo, eu não tenho problema também, não guardo ressentimentos.”
“É possível, sim, se guardar e ser santo na escola, como Carlo Acutis. Ele tinha uma meta de vida, né? E eu acredito que, quando a gente tem uma meta, a gente se esforça até que consegue, na oração, na penitência… A gente consegue ser santo, sim!”
Aquilo que ninguém retira, que ladrão nenhum rouba

O Arcebispo Metropolitano, Dom Carlos Alberto Breis, OFM, atrelou a essa citação, em sua homilia, a esperança que não decepciona (tema do Mês da Bíblia de 2025), mas facilmente ela também poderia estar ligada à essência, às raízes, como também citadas por ele.
Provavelmente esse elemento faça parte do “segredo” para fazer o básico bem feito, mas não parar somente nele. Como para Carlo, que queria se empenhar para “não passar pelo purgatório e ir direto para o céu”, e para Pier, que queria “viver e não apenas sobreviver”, na vida em abundância que o próprio Deus veio apresentar a todos.
“Eis o homem interior! Amado do Pai porque muito amou. Porventura, não é verdadeiro que só permanece, sem nunca perder a sua validade, o fato de quem amou?” (São João Paulo II, na beatificação de Pier Giorgio Frassati.)

Luciana Ferreira, mãe do Luan Bruno citado acima na matéria, é um exemplo do que o amor pode gerar além da maternidade, e também por causa dela.
“Sempre andei na Igreja, mas confesso que eu era meio herege. Vinha porque meu marido me trazia. Tenho um filho mais velho, que tem 22 anos hoje, e mesmo ele sendo coroinha e frequentando a Igreja, eu ainda não entendia. Foi depois da gravidez do Bruno que tudo mudou.”
Luciana conta que, ainda muito novo, Luan Bruno já havia manifestado a ela — e até a Dom Antônio Muniz — o desejo de ser cardeal. O jovem, que hoje, além de acólito, também faz parte da Ordem Terceira do Carmo, é a inspiração de fé autêntica para a família.
“Confesso que aprendi mais com ele do que ele comigo. A experiência que tenho hoje com a Igreja foi com ele me ensinando. Tive uns desafios com meu filho mais velho, e ele (Bruno), mesmo com pouca idade, foi quem chegou pra mim e disse: ‘Mãe, se pegue com Deus e com Nossa Senhora e não desista do meu irmão. Santa Mônica rezou 30 anos pela conversão de Santo Agostinho, e agora ele é santo. Não desista do meu irmão’.”
Não obstante, enquanto muitas crianças acabam sendo porta-alianças do casamento dos pais após longos anos sem oficializar a união, Bruno foi o intercessor, orientador e quem levou os pais ao sacramento, como conta Luciana:
“Nós vivíamos juntos há mais de 20 anos e eu não sabia que vivia no pecado. Quem me disse foi ele (Bruno): ‘Mãe, vocês vivem no pecado e precisam sair disso. Futuramente, no dia em que eu me tornar santo, quero que vocês possam ir pro céu junto comigo’.”
“É um orgulho imensurável falar dele. As coisas que ele aprende moldam nossa família toda e era pra ser o contrário, né? Mas, vendo o jeito dele, a vontade é de aprender mais e ser melhor pra poder acompanhar ele.”, testemunhou Luciana.
Desde sempre, o céu nos espera
Uma citação de Pier Giorgio — ou Pedro Jorge — destacada também por Dom Beto em sua homilia foi a frase:
“Jesus me visita todos os dias na Eucaristia, e eu O retribuo visitando os pobres.”
Ela não só ressalta a fé que Pier tinha na Eucaristia, como também a ligação entre o céu e o nosso campo de missão: o próximo.
É nesse mesmo carisma que dois grupos, que carregam o nome dos santos, têm trabalhado na Arquidiocese, em bairros da parte alta e também no interior.
O grupo Geração Acutis, da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, no bairro da Gruta de Lourdes, é coordenado por Evelyn Ramos. O grupo é recente, criado durante a Semana Santa deste ano, e se reúne todos os sábados para momentos de oração, estudo bíblico, organização das programações da semana e elaboração de projetos que favoreçam a participação ativa da juventude na vida da Igreja.
Para Evelyn, a canonização de Acutis significa uma imensa alegria e profunda emoção:
“Tive a honra de prestigiar a canonização de dois jovens cujas vidas foram marcadas pela fé, pelo amor a Deus e pelo testemunho corajoso do Evangelho. Presenciar esse momento histórico foi, sem dúvida, uma experiência única e edificante, pois foram jovens que viveram um pouco do que nós também vivemos e queremos viver.”
“Hoje, podemos chamá-los oficialmente de santos, exemplos luminosos de que a santidade é possível mesmo na juventude. Suas vidas e sua canonização enchem nossos corações de esperança e nos inspiram a viver com autenticidade e entrega o chamado cristão em nossos dias.”

“O grupo Geração Acutis, da Comunidade São José, pertencente à Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, na Gruta, é uma homenagem a São Carlo Acutis, que hoje reconhecemos como um verdadeiro amigo e intercessor no céu. Inspirados por sua vida e seu amor à Eucaristia, desejamos cultivar a fé por onde passarmos e ser, como ele foi, exemplo de jovens comprometidos com o Evangelho.”
“Contamos com a intercessão de São Carlo Acutis e seguimos com alegria, buscando ser uma geração que evangeliza com fé, amor e criatividade.”
Já a Juventude Frassati faz parte da Fraternidade Casa de Ranquines, inspirada em São Vicente de Paulo, patrono da caridade, por quem Frassati não só teve devoção como o tomou como um dos guias de seu caminho pastoral.
O jovem Davi Gomes faz parte do grupo há mais de dois anos e descreve a emoção da canonização de Pier:
“É como ver um amigo de longa data que está mais próximo do que nunca, pois aquilo que me levou a conhecê-lo, simpatizar e cultivar essa amizade é aquilo que o levou ao céu. É pelo que luto e agora sei que, pelo exemplo dele, posso seguir com confiança, esperando com a graça de Deus encontrá-lo um dia na eternidade.”
“Conheci Pier, ou Pedro Jorge, quando conheci a espiritualidade vicentina na Casa de Ranquines. No meio dos santos até então desconhecidos para mim, o nome do beato aparecia como baluarte da juventude vicentina dentro da comunidade. Mais um nome estrangeiro, mais um sinal de que Deus quer unir seus amados, seus amigos, por mais que sejam de tão longe. Um jovem italiano que viveu uma vida curta e intensa, pois desde cedo soube ir até Cristo.”
“Já ouvi dizer que Deus suscita santos necessários para cada tempo. Assim como Pedro Jorge, a ainda beata Chiara Luce, Carlo Acutis ou São Maximiliano (padroeiro do bairro) tiveram suas vidas modeladas pelo Evangelho, pelo amor à Eucaristia, pela frequência aos Sacramentos e pela devoção mariana, nós não ficamos de fora da vida divina, pois Deus quer que sejamos santos hoje, agora, mesmo que seja uma santa vida ordinária.”
“Pedro Jorge Frassati me inspira a pensar alto, a ir para o alto, e me ajuda muito nisso quando lembro do que disse em uma de suas cartas a um de seus amigos:
‘… De tempos em tempos, me pergunto: continuarei buscando seguir o bom caminho? Terei a ventura de perseverar até o fim?
Em meio a este tremendo embate diante das dúvidas, a fé que me foi dada no Batismo me aconselha com voz segura: “Por si mesmo, você não fará nada, mas se tiver a Deus como centro de todas as suas ações, então, sim: você chegará ao fim.”
É justamente isso que gostaria de poder fazer, e tomar como lema o dito de Santo Agostinho: ‘Ó Senhor, inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti.’”, testemunhou Davi.









