Mariane Rodrigues| Setor de Comunicação
Na oportunidade, ele externou sua preocupação com os moradores dos bairros afetados pela mineração e explanou sobre a importância de olhar para os mais pobres

Ao receber o título de Cidadão Honorário de Maceió da Câmara Municipal de Vereadores, o arcebispo metropolitano Dom Beto Breis fez um discurso de 12 minutos diante da tribuna da Casa Legislativa, na última segunda-feira (6).Ele usou do bom humor, da singeleza e da gratidão para falar do orgulho em se tornar cidadão de Maceió e para relembrar sua trajetória no sacerdócio.
Na oportunidade, ele externou sua preocupação com os moradores dos bairros afetados pela mineração e explanou sobre a importância de olhar para os mais pobres, pois acolher os mais vulneráveis está no seio do Evangelho.
Dom Beto estendeu a homenagem a toda a Arquidiocese de Maceió, a quem descreveu como “viva” e “atuante”.
“Recebo esta honraria como pastor de uma Arquidiocese viva e atuante nesta acolhedora cidade de Maceió. ‘Onde está o Bispo, aí está a Igreja’, já afirmava Santo Inácio de Antioquia, no segundo século. A Arquidiocese de Maceió – com todo o Povo de Deus (pastores, religiosas e fiéis cristãos leigos) – é quem merece o reconhecimento por sua história de uma Igreja missionária e samaritana nestas terras de Alagoas”, disse Dom Beto, abrindo o discurso.
O arcebispo, que nasceu no litoral de Santa Catarina, relembrou sua saída da cidade natal para cumprir sua missão como sacerdote, bispo e depois arcebispo, passando pelo Ceará, pela Bahia e por Pernambuco até chegar ao “Paraíso das Águas”, em Alagoas, em 2023.
Foi em abril de 2024 que Dom Beto se tornou arcebispo da Arquidiocese de Maceió, com a saída – a pedido – de Dom Antônio Muniz.
Ao citar sua trajetória, reforçando a vida peregrina de quem se entregou ao sacerdócio, Dom Beto enfatizou que amar as cidades, em relação às suas engenharias e estruturas físicas, talvez não seja o primordial da vida de um cidadão. Para ele, o que faz um cidadão amar uma cidade são as pessoas que vivem nela e os laços que são construídos nesses lugares.
“Creio que nós, na verdade, não amamos uma cidade, um espaço físico e geográfico. As estruturas são rígidas, impermeáveis e sujeitas aos ditames do tempo. Absolutamente não amamos um conjunto de edificações, largos e vias. Amamos pessoas que percorrem suas ruas, habitam suas casas, rezam em suas igrejas, brincam e descansam em suas praças e orlas… É com elas que estabelecemos relações de ternura e familiaridade. Os espaços ficam impregnados de memória e de aconchego. Amamos uma cidade porque nela vivem quem amamos, quem já nos cativou. Assim, tenho Maceió já, tomando expressão do poeta Milton Nascimento, ‘no lado esquerdo do peito, dentro do coração’, pois vislumbro cotidianamente, como pastor, uma gente acolhedora, afetuosa, de alma romeira que, em pouco tempo, faz-me sentir em casa, com alegria”, afirmou Dom Beto de modo afetivo.
Dom Beto citou o escritor alagoano Graciliano Ramos para externar sua compaixão aos moradores dos cinco bairros de Maceió afetados pela mineração e que precisaram sair forçadamente de suas residências por causa da instabilidade do solo.
“Concordo com o grande Mestre Graça, Graciliano Ramos, que por duas ocasiões viveu nesta Capital: ‘Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões’. Por isso pergunto: como ser pastor, chamado a ter os sentimentos daquele que teve compaixão das multidões (Mt 9,36), e não me comover diante do drama de tantos cidadãos maceioenses forçados a uma diáspora por causa da ganância e do poder de uma empresa de mineração? Como sabemos, trata-se de um crime (não um desastre) socioambiental, o maior em solo urbano em toda a história deste país”, expôs o metropolita.
Dom Beto lembrou ainda daqueles que tiveram de permanecer isolados, como os habitantes dos Flexais, que não foram classificados pelos órgãos como moradores de área de risco, mas permaneceram no local onde já não há mais equipamentos públicos, como transporte, postos de saúde, escolas, etc.
Para Dom Beto, mais que uma mudança de endereço, foram perdidos laços, vínculos, convívios e vizinhanças que fizeram parte da vida dessas pessoas.
“Não se trata apenas de deslocamento de pessoas, de mudança de endereço. São laços de vizinhança e vínculos desfeitos, sonhos e memórias cavados e desmoronados. Tenho ouvido histórias, escutado lamúrias e relatos de mortes, doenças do corpo e da alma de cidadãos não respeitados em seus direitos inalienáveis. A situação dos moradores da comunidade dos Flexais, isolados e sem as condições dignas de moradia, trabalho (trago aqui a situação dos marisqueiros), acessibilidade e outros mais, persiste. Também quem ficou (não foi realocado) – no Pinheiro e no Bom Parto, por exemplo – tem diante de si um cenário de guerra, de destruição e de um vazio deixado por aqueles que, como refugiados em sua própria terra, deixaram para trás o chão dos seus afetos”, recordou o metropolita.
Dom Beto aproveitou a tribuna da Casa Legislativa para pedir aos representantes do povo que olhem para os mais pobres.
Pediu que visitem os pobres na periferia e nas grotas e estabeleçam políticas públicas eficazes para os mais vulneráveis.
Dom Beto lembrou que olhar para os mais pobres está no seio do Evangelho e norteou a vida de Jesus Cristo.
“Como homens públicos, representantes do povo, lutem para que dívidas sociais sejam ressarcidas com leis e políticas públicas eficazes. Visitem os pobres não só em ano de eleição, ouçam seus clamores, vejam seus sofrimentos, exerçam seus mandatos com ternura a partir das periferias, das grotas e grotões, pois aí está o centro do Evangelho e o começo de uma ordem social equitativa e promotora de paz. Desde o Papa Pio XI (+ 1939), a Igreja vem recordando que a política é a mais sublime forma de caridade. Não há caminho eficaz para a fraternidade e a paz social sem uma boa política. Bem disse uma cidadã maceioense que tanto nos orgulha e interpela, a doutora Nise da Silveira: ‘É necessário se espantar, se indignar e se contagiar; só assim é possível mudar a realidade’.”
Por fim, Dom Beto terminou seu discurso agradecendo aos parlamentares pela homenagem e a todos aqueles que compõem a Arquidiocese de Maceió, pelo caminhar juntos, mesmo diante dos desafios.
